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Exercício físico como aliado no tratamento da Depressão

Esther Reis
19 de ago.
2 min de leitura

Quando pensamos em tratamento psiquiátrico logo nos vem à mente medicamentos controlados e terapia. Mas, na medicina moderna, as doenças não são mais tratadas de forma isolada: elas são vistas como manifestações pontuais que podem causar desequilíbrios sistêmicos. E é nessa linha de raciocínio que os exercícios físicos assumem um papel crucial no tratamento de enfermidades psiquiátricas, como a depressão e ansiedade, uma vez que promovem modificações benéficas no corpo todo, inclusive no cérebro.

Para conseguirmos traçar um paralelo claro entre essas duas variáveis, primeiro é preciso compreender os aspectos patológicos da depressão no organismo. Ela não é apenas uma alteração do humor. Ela é um transtorno que envolve cérebro, sistema neuroendócrino, imunológico, metabolismo, sono, comportamento e funcionamento corporal. Na depressão, circuitos do córtex pré-frontal - uma das partes do cérebro - envolvidos no controle das emoções, atenção e tomada de decisões podem apresentar funcionamento alterado, contribuindo para sintomas como dificuldade de concentração, desmotivação e pensamentos negativos persistentes. Também pode comprometer os circuitos cerebrais de recompensa, reduzindo a motivação e a capacidade de sentir prazer - fenômeno conhecido como anedonia.

Nesse sentido, podemos ver que a doença afeta inúmeras estruturas cerebrais, entre muitas outras que não foram citadas nesta coluna. Porém, para além disso, ela também interfere na neuroplasticidade cerebral, que é a capacidade do sistema nervoso de modificar suas conexões e funcionamento em resposta às experiências. Existem evidências que relacionam a depressão e uma baixa no BDNF - uma proteína que atua na sobrevivência, crescimento e funcionamento dos neurônios, além de participar da plasticidade sináptica. Esse ponto é crucial, pois mostra como a depressão pode comprometer a capacidade de adaptação do cérebro e, consequentemente, seu funcionamento adequado. É justamente nesse mecanismo que o exercício físico parece exercer parte de seus efeitos benéficos, uma vez que sua prática regular pode estimular a produção de BDNF e favorecer a neuroplasticidade.

Logo, o exercício físico pode ser entendido como um estímulo capaz de promover adaptações justamente nesses sistemas afetados pela depressão. Durante a atividade física, o cérebro aumenta a sinalização de fatores relacionados à neuroplasticidade, entre eles o BDNF, favorecendo a formação e o fortalecimento de conexões entre os neurônios. Com a prática regular, essas adaptações podem contribuir para que circuitos cerebrais envolvidos na cognição, na motivação e na regulação emocional funcionem de maneira mais eficiente. Também atua sobre o sistema de recompensa cerebral, influenciando vias relacionadas à dopamina e à motivação, o que pode ajudar a reduzir a perda de interesse e prazer característica da depressão.

O exercício físico não deve ser visto como uma intervenção que atua sobre um único mecanismo da depressão. Seus benefícios parecem surgir da combinação de diferentes adaptações: maior estímulo à neuroplasticidade, modulação dos circuitos de recompensa e melhor regulação da resposta ao estresse. É justamente essa atuação simultânea sobre diferentes sistemas que ajuda a explicar por que a atividade física pode ser uma importante aliada no tratamento dos transtornos psiquiátricos. Assim, mais do que uma recomendação para manter um estilo de vida saudável, a prática regular de exercícios pode ser compreendida como uma ferramenta terapêutica capaz de contribuir para o equilíbrio do organismo e para a recuperação da saúde mental.

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