Crítica: Velhos Bandidos
- Vitor Romero

- 7 de jul.
- 4 min de leitura
Atualizado: 14 de jul.
Como pode o cinema brasileiro ser uma relíquia tão grande? Velhos Bandidos é o tipo de filme que escancara a identidade brasileira. Não pelo roubo ou pela trapaça: mas pela capacidade de rir mesmo em momentos tensos. Não existe nada mais “Brasil” do que ser feliz. E às vezes, nós precisamos dar o famoso “jeitinho brasileiro”.
Velhos Bandidos é a clássica comédia dramática. Ele te faz rir, é engraçado de tão irreal. Mas, ao mesmo tempo, tem um drama inserido de maneira precisa na história. E eu repito minha pergunta: como pode o cinema brasileiro ser uma relíquia tão grande?
E o filme não para por aí. Ele junta gigantes da atuação brasileira em uma única tela. Fernanda Montenegro é o destaque do filme. A dama da dramaturgia é o destaque de um filme de comédia de ação dramática. Esse gênero nem deve existir, mas, para ela, o mundo cria o gênero que for necessário. Sua escolha para integrar o elenco é acertada, mas é difícil falar que ela é uma escolha errada para alguma coisa. A atuação de Fernanda Montenegro transcende a tela, e a forma como ela faz comédia possui elementos dramáticos muito bem colocados. A técnica que ela possui é absurda, precisa o suficiente para estar em um filme que foge da sua zona de conforto (se é que isso é possível). Não é preciso falar que Fernanda Montenegro nasceu para isso.
Ary Fontoura como parceiro de cena de Fernanda Montenegro é tão gracioso que chega a ser uma das maiores benfeitorias do longa. A atuação do veterano também tem o tom certo, exatamente como a obra precisa. O contraste do seu personagem na trama é algo que somente um ator grandioso conseguiria fazer.
A dupla Bruna Marquezine e Vladimir Brichta é improvável... mas funciona perfeitamente em cena. Os dois se complementam, roubando os holofotes para dois bandidos de meia tigela. A química dos dois é muito boa, e nem digo no sentido de casal, mas na técnica de atuação. Eles formam uma coisa juntos que parece que são aqueles assaltantes fora do filme. É raro.
Velhos Bandidos é o tipo de filme que vem para ser lembrado daqui a alguns anos. Não é tão grandioso quando Minha Mãe é uma Peça, mas se parece muito com o filme em um quesito: fazer comédia de uma forma engraçada e ao mesmo tempo, emocionante.
E que direção. Claudio Torres fez um trabalho magnífico por trás da câmera, assim como sua equipe técnica. O filme foi construído de uma forma que prende a atenção do espectador, contando a história de antes, o momento durante e o que acontece no pós-roubo. E é nessa construção de tempos que ele faz sua escolha mais acertada: em vez de se prender a conversas, ele mostra a ação. Da forma como os personagens estão contando, sem mostrar os erros inesperados que são reservados ao momento do roubo. E longe de tornar o filme repetitivo, ele torna o filme fácil de se entender, em que o telespectador é capaz de compreender todas as variantes de um mesmo plano.
Lázaro Ramos é outro gigante do elenco. Com seu nome de peso e atuação marcante, é ele quem entrega o que o telespectador está esperando desde o primeiro minuto do filme: a reviravolta. Só que ela vem de uma forma muito difícil de se imaginar. O desfecho pode até ser parecido com o pensamento do telespectador, mas a execução não se entrega ao óbvio.
E foi com Lázaro Ramos que eu dei a maior gargalhada do filme: o momento em que ele vira para a personagem de Fernanda Montenegro e fala que ela poderia ser atriz. Esse momento rompe a quarta parede, criando, inevitavelmente, um paralelo com a realidade. Deixa de ser uma conversa com um policial e uma ladra e passa a ser uma conversa com a maior atriz brasileira de todos os tempos. É sugerir para a potência de atuação do Brasil, que ela poderia ser atriz. É genial. É engraçado. É comédia. É Brasil. É algo que só o “jeitinho brasileiro” é capaz de fazer.
O longa não vem com uma proposta de revolucionar o cinema brasileiro e nem quer estourar a bolha e ser indicado ao Oscar. A verdade é que nem todo filme precisa ser feito pensando nas grandes premiações. Em muitos momentos, fazer uma produção capaz de entreter o público, com comédia, drama e pitadas de crítica social é muito maior do que qualquer estatueta. E é exatamente o que Velhos Bandidos faz. Ele chega cumprindo todos os requisitos de entretenimento, mostrando para o brasileiro que o cinema do país respira, vive e continua forte.
O figurino do filme também é um ponto a seu favor. As roupas são impecáveis, condizentes com as cenas, com o momento e com a proposta. Os trajes utilizados pelos personagens retratam sua personalidade de uma forma que muitas produções de Hollywood matariam para conseguir fazer. O terno vermelho usado pela personagem Marta no momento que ela desce do avião é a prova viva de tudo isso. Mais do que uma roupa, é a exalação da vitória. É uma vestimenta que só quem venceu pode usar.
A fotografia acompanha as outras partes técnicas do filme. Ela é muito boa, muito bem construída e muito condizente. Ela modifica todo o visual das cenas para o telespectador conseguir compreender, de maneira ainda mais fácil, o que é passado e o que é presente. A mudança das cores e da atmosfera visual é perceptível, evidenciando muito bem o momento em que o longa está.
A trilha sonora talvez seja a parte mais fraca da produção. Não que seja ruim, longe disso. Mas faltou justamente o que o filme construiu tão bem: brasilidade. Faltou alguma música que exalasse esse sentimento compondo a obra, como muitos filmes de comédia fazem. Comparado aos outros aspectos técnicos do filme, é o mais incompleto e o mais fraco.
Mas, isso não estraga o filme. Ele continua sendo o tipo de produção que você assiste em um domingo à tarde e sai recomendando para todo mundo na segunda-feira. E é impressionante como ele não se sustenta pelo elenco de peso. Ele se sustenta por ser o que é.
Velhos Bandidos é uma fórmula velha, dentro de uma visão nova.
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