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Crítica: Corrida dos Bichos

Foto do escritor: Vitor Romero
Vitor Romero
10 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 11 de ago.

Sabe aquele filme com uma premissa excelente e com um potencial muito grande? Corrida dos Bichos é esse filme. Mas a execução transforma o extraordinário em bom.

Não é que seja um filme ruim. Só não alcança o patamar que ele poderia alcançar. E isso é frustrante.

Um dos principais problemas da produção é o elenco. Mas como um filme que contém grandes nomes da atuação brasileira consegue ser ruim em elenco?

Basicamente, desperdiçando esses nomes.

Quando falamos disso, Grazi Massafera é o principal nome. Ela já provou, em toda a sua carreira, que consegue fazer grandes personagens. Que tem capacidade dramática, construção de conflitos internos e todo desafio que um personagem necessita. Sua história recente com “Arminda” na novela Três Graças mostra que nem uma vilã de novela das 21h é algo que ela não consiga fazer.

Mas, mesmo com todo o seu histórico e com todo o seu potencial, ela foi escalada para uma personagem apagada, que não tem um motor central na trama. E ela não é atriz para isso. Ela entrega nuances de atuação de uma forma excepcional.

Isis Valverde é o segundo problema do elenco. Sua atuação foi, em poucas palavras, sem sal. Sua personagem tem uma importância muito grande na trama, sendo um dos núcleos centrais. E tudo o que ela consegue passar é que é só mais uma. Não tem emoção, não tem expressão, não tem a complexidade de uma personagem que já esteve no outro lado do jogo e agora está sentada na mesa dos grandes. 

É estranho olhar para ela e não sentir nada quase o tempo inteiro. O único momento em que eu realmente sinto que tem alguma coisa a mais, e é o máximo que eu posso chamar, é quando ela está contracenando com Matheus Abreu. Mas talvez seja a atuação impecável dele que transforme toda a cena.

E é esse o grande problema da Grazi Massafera. Não é nem ter sido escalada para uma personagem sem grande importância. Em muitos filmes, uma atriz muito famosa é usada para atrair a atenção para a obra. Mas a questão é: Massafera teria entregado uma atuação muito superior à de Isis Valverde. Com as nuances necessárias, com o drama, com o peso de já ter estado do outro lado.

Isso sim era uma personagem para Grazi Massafera.

Anitta, para mim, é uma grande surpresa. Por ser um dos seus primeiros trabalhos como atriz, eu realmente não esperava muito. Mas sua personagem possui uma importância central na trama: é a grande narradora do evento que dá nome ao filme. E Anitta conseguiu carregar essa responsabilidade. A personagem combinou muito com ela, a narração foi muito bem encaixada. Por mais que grande parte do tempo só ficasse sua voz, mesmo as cenas em que ela aparecia funcionavam muito bem. É um destaque positivo do filme.

Mas, se existe uma surpresa boa, existe uma surpresa ruim: João Guilherme. Ele possui uma atuação fraca na maior parte do tempo e vergonhosa nas outras. A cena em que ele se apresenta para tentar se tornar bicho me fez sentir uma vergonha alheia que eu não sentia há muito tempo. A apresentação dele, os sons emitidos. O que salvou aquela cena foram Grazi Massafera e Rodrigo Santoro.

Falando em Rodrigo Santoro, sua atuação foi dentro do esperado. Ele é um nome gigante da atuação brasileira e entregou um personagem condizente. Não me surpreendeu, em parte, porque eu já espero uma grande performance vinda dele.

Bruno Gagliasso, outro nome muito famoso do elenco, entregou uma atuação boa. Não ultrapassou muitas barreiras, mas teve técnica e um personagem ambíguo. Teve o que precisava ter, e isso foi suficiente.

Mas, para mim, os grandes destaques do filme são Matheus Abreu e Thainá Duarte.

Matheus Abreu entrega uma performance sensacional. Seu personagem é complexo, dividido moralmente. E, mesmo com essa dificuldade, ele entregou uma atuação em outro nível. Em muitos momentos, ele não precisou dizer absolutamente nada para se expressar. Seu corpo, seu olhar e seu posicionamento diziam por ele.

A postura e a forma como ele dominava a cena são dignas de veteranos da atuação. A ponto de contracenar com Rodrigo Santoro e o foco continuar nele. Sua dinâmica com Isis Valverde é o que salva a atuação da atriz no filme. Porque, até antes dos momentos finais com o personagem, ela estava basicamente “água com açúcar”. Não que tenha melhorado muito depois disso.

Thainá Duarte foi o contraponto perfeito: uma personagem complexa, firme, terrivelmente quebrada e angustiada. Sua personagem era o seguro. Se o irmão perdesse, ela perdia, ia ser vendida ou levada embora para ser cobaia de laboratório.

E ela entregou exatamente o que sua personagem era: difícil, esperançosa com o irmão e, acima de tudo, morrendo de medo. Foi excelente.

Porém, não é só o elenco que faz o filme cair. A trilha sonora, com foco na escolha da música-tema, é o principal ponto que faz tudo desabar. Dentre tantas músicas que abordam a desigualdade, precisava ser justamente “Bichos Escrotos”?

Realmente, para mim, essa escolha fez o filme cair completamente. Em um mundo em que existe “Que País É Este”, do Legião Urbana, “Bichos Escrotos” perde completamente a força.

E aqui, para mim, entra o grande erro da Anitta nesse filme. Ter aceitado regravar uma versão dessa música que definitivamente não casou com o filme beira a insanidade. Precisou de muita coragem, porque a noção passou longe. Correu mais do que os próprios bichos.

Fora que a regravação não ficou boa. Piorou a música, tentando adaptar o ritmo.

Porém, mesmo com esses erros, existe a direção do filme. Que foi excelente. As escolhas foram ótimas, as cenas de ação muito bem conduzidas, desde o posicionamento das câmeras até a mudança do foco da visão. Tudo muito acertado.

Mas, acima de tudo, a direção conseguiu acertar algo ainda mais difícil: o ritmo.

Mesmo o filme se passando quase inteiramente em uma corrida, não ficou um ritmo arrastado nem repetitivo. A história andou, não ficou arrastada. Poderia ter sido uma lesma andando. Mas não foi.

E a fotografia do filme também é um grande destaque positivo do filme. A construção do mundo apocalíptico em que a história se passa foi muito bem elaborada, conversando diretamente com o cenário e as escolhas artísticas. Os tons utilizados na tela, a construção dos desertos (que um dia foram oceanos), as periferias, os complexos. Tudo feito com técnica e muito bem executado.

Foi excelente a construção do filme.

Mas isso não salvou o filme de cair do conceito de excelente para o bom.

O filme não é ruim. Mas como foi construído tecnicamente e com o elenco disponível, tinha potencial para ser um dos melhores filmes brasileiros do ano.

E, mesmo assim, desperdiçou seu potencial.

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