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Crítica: Nunca Minta

Foto do escritor: Vitor Romero
Vitor Romero
17 de ago.
4 min de leitura

Freida McFadden me fez de otário. E é exatamente por isso que Nunca Minta é um livro excelente.

Meu histórico com a autora não era dos melhores. Depois dos livros de A Empregada, eu sinceramente não acreditava na capacidade de Freida em me surpreender. Eu consegui adivinhar as revelações antes delas acontecerem.

Mas, mesmo assim, eu senti uma coisa que me fez querer dar outra chance para Freida McFadden: sua escrita. Sua escrita é simples, envolvente. Ela não precisa de muito para te transportar para dentro do universo que ela criou. Não precisa de palavras chiques e histórias fora da curva.

Em A Empregada, eu senti um pouco de enrolação. Em Nunca Minta, isso não apareceu em momento nenhum. Primeiro, a narrativa é muito boa, diferente do habitual. Ela se divide em três momentos: presente, com Tricia, passado, com Dra. Adrienne, e transcrições de áudio dos pacientes da Dra. Adrienne.

Isso, por si só, já deixa uma narrativa muito interessante.

Mas existe um outro elemento muito bom nisso tudo: Tricia e Adrienne estão vivendo na mesma casa. Só que uma viveu três anos antes, e a outra está lá no presente.

Então, a história das duas conversa sem necessariamente elas precisarem estar juntas em cena.

Às vezes, um detalhe revelado da casa por Tricia faz ainda mais sentido em uma descrição de Adrienne.

E aqui entra o ritmo com que Freida McFadden construiu tudo isso. É arriscado escrever uma história que se passa em cerca de dois dias. Mas ela conseguiu equilibrar o ritmo de uma maneira fantástica.

Tricia estava visitando a casa com seu marido, Ethan, para saber se comprariam ou não. Mas uma nevasca os prende na casa, sem comunicação.

E eles precisam viver em uma casa desconhecida.

Eu não senti a história corrida, muito menos arrastada. Até a diagramação do livro físico facilitou a leitura.

E quando chegou no final... Aqui eu me senti um idiota. Porque Freida McFadden conseguiu me enganar direitinho.

Na página oitenta e cinco eu imaginei ter adivinhado o grande plot do livro. Mas a forma como eu fui enganado chega a ser ofensivo à minha dignidade.

A partir de agora, os spoilers são inevitáveis. Então, se você não leu o livro, pare por aqui.

Eu NUNCA, em momento NENHUM, suspeitei de Tricia.

Cheguei a suspeitar de Ethan e, na minha cabeça, sabia de todo o plot em que ele era o assassino. Em raros momentos, cheguei a imaginar que Adrienne estava viva.

Mas acho que era exatamente isso que Freida McFadden queria. Ela jogou migalhas, e eu, inocente, corri atrás delas.

Ela era a bruxa daquela história do João e Maria. E eu sou quem foi jogado no forno.

Descobrir que Tricia era a grande psicopata foi realmente surpreendente. Eu não suspeitei dela. Para mim, ela só era uma mulher indefesa que ficou presa em uma casa muito estranha em uma nevasca.

Mas aqui, Freida McFadden cometeu o erro que não deixou o livro se tornar cinco estrelas.

Para que todo o plot do livro funcionasse, ela precisou, obviamente, criar situações favoráveis a ele. O problema foi como ela fez isso.

Durante todo o livro, a Dra. Adrienne era descrita como uma personagem extremamente inteligente. Em uma passagem, ela chega, enquanto criança, a ser considerada mais inteligente do que seus professores.

Porém, as escolhas de McFadden tornam Adrienne uma das personagens mais burras que eu já conheci. E isso é incompatível com sua grande inteligência e com sua formação em Harvard.

Eu realmente espero que uma pessoa formada em Harvard não seja idiota assim na vida real.

O grande problema começa quando ela é chantageada por um paciente psicopata, o EJ. O motivo? Um vídeo dela, em um momento de fúria, furando os pneus de um carro no estacionamento.

Ela enxerga aquilo como a coisa que vai destruir sua carreira. Que vai acabar com sua imagem.

E convenhamos. Uma pessoa furando o pneu de um carro não vai acabar com a imagem de ninguém. Muita gente seria capaz de furar um pneu em um momento de fúria.

Claro, ocorreriam matérias, certos problemas e até um desgaste leve.

Mas ninguém é cancelado por conta de um pneu. Hoje em dia os famosos fazem coisas muito piores e ganham milhares de seguidores.

E aí, depois de muito ser chantageada, ela tem uma ideia FENOMENAL para resolver o problema.

Dopar EJ, mandar seu namorado invadir a casa e o computador dele e apagar o vídeo. Claro, isso é muito melhor do que um vídeo furando um pneu.

E aí, na cabeça dela, era impossível que EJ tivesse feito cópias do vídeo em outro lugar.

E mesmo que ele não tivesse feito nenhuma cópia e a situação tivesse se resolvido por aí... É SÉRIO QUE ELA NÃO PENSOU QUE UM PRÉDIO TEM CÂMERAS?

É Manhattan. Claro que um prédio tem câmeras.

E aí, ela tem outro problema. Porque EJ tinha a cópia do vídeo e agora ele tinha o vídeo do namorado dela invadindo a casa dele.

Mas aí vem a ideia mais brilhante de todas.

A única solução é matar o EJ.

Claro... matar uma pessoa é muito melhor do que um vídeo seu furando o pneu de alguém em um estacionamento.

Me desculpa, mas Adrienne é uma das personagens mais burras que eu já conheci.

Mas são esses gatilhos que fazem a história acontecer e o plot do final funcionar. E, meus amigos, que plot. Não vou falar dele aqui. Não quero correr o risco de uma pessoa chegar até aqui querendo descobrir a história. Esse plot precisa ser lido.

A verdade é que eu não quero ser feito de otário sozinho.

Mas Nunca Minta é realmente um excelente livro.

Freida McFadden só erra na construção excessiva de burrice na Dra. Adrienne.

Sinceramente... quem pensaria em matar uma pessoa só por causa de um vídeo furando um pneu?

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