Crítica: Boa Sorte, Léo Grande
- Vitor Romero

- 14 de jul.
- 10 min de leitura
Atenção: esta crítica contém spoilers do filme.
“Se quiser, pode pedir seu reembolso.”
Essa frase ecoou na minha cabeça de uma forma que poucas frases conseguiram.
Boa Sorte, Léo Grande é um filme complicado de digerir. Ou melhor, complexo de digerir. A obra aborda várias temáticas, mas algumas se sobressaem: a aceitação do corpo, o tabu sexual e os profissionais do sexo.
É impressionante como todas as vertentes desse filme são complexas. Não existe uma resposta certa ou errada quando são esses assuntos em pauta.
Não existe classificar uma pessoa como boa ou como ruim por contratar ou deixar de contratar um profissional do sexo. E a forma como o longa aborda isso é de uma sensibilidade muito rara.
O tema “profissionais do sexo” não possui uma única interpretação. Ele necessita de discussão, de um olhar humanizado e de aprofundamento. E é exatamente o que a obra faz.
O filme é dividido em dois protagonistas: Nancy (Emma Thompson) é uma professora aposentada, mãe e viúva. Possui desejos sexuais de uma vida inteira em um relacionamento que não a satisfazia sexualmente. Possui tabus que ela mesma construiu ou acreditou quando construíram para ela. O sexo, uma coisa tão rotineira e comum na vida humana, se torna algo que ela praticamente não viveu.
E é por essa razão que ela contrata um profissional do sexo, Léo Grande (Daryl McCormack). O jovem é completamente diferente: não possui nenhum tabu, é totalmente desconstruído e ajuda Nancy a realizar seus desejos, desconstruindo os tabus que existem dentro dela lentamente.
E durante esse processo, eles criam uma espécie de conexão. Diferente, obviamente, de uma conexão amorosa. É um tipo de ligação que eu não consigo explicar.
Os dois trocam conversas extremamente profundas. Ele escuta Nancy ativamente, passando uma confiança para a personagem, que também faz questionamentos sobre a vida do jovem. E ele responde naturalmente, como se tudo estivesse bem. Mas tem um momento em que tudo desaba.
Nancy questiona Léo Grande sobre seu verdadeiro nome. Ele não responde, e ela afirma que já descobriu. Nessa ocasião, que acontece no terceiro encontro, o personagem surta. Mais do que isso, ele desaba. E ali, naquele momento, você enxerga uma coisa que fica imperceptível ao longo do filme: a fragilidade que uma vida de exposição pode gerar.
Em alguns raros momentos do filme, antes do personagem explodir, você percebe um certo desconforto. Mas não é escancarado e rapidamente passa. Então, em um primeiro momento, passa a impressão que ele realmente gosta da vida que leva. E talvez goste. Essa é justamente a complexidade do debate, que levanta perguntas muito interessantes. Será que essa fragilidade acontece em todos os casos? Ou acontece porque relações humanas são mais complexas para se tratar como um simples trabalho? Uma simples transação.
São questionamentos importantes que o filme levanta. É de uma complexidade tão grande que talvez eu seja o primeiro crítico que não conseguiu ter uma opinião formada sobre o que o filme quer apresentar.
O debate sobre aceitação do corpo e passar a se amar da forma que você é nítido com o arco de Nancy.
O debate em torno dos profissionais do sexo, da fragilidade, da vulnerabilidade e da exposição é nítido com o arco de Léo Grande.
O debate sobre o tabu sexual e como o sexo ainda é visto como promiscuidade na sociedade é nítido com a junção dos dois personagens.
Mas eu não consigo compreender o que exatamente o longa gostaria que pensássemos. Porque não existe uma única resposta. Cada telespectador vai pensar de uma forma, e para mim, esse é o grande acerto do filme. É você sair dele sem saber o que pensar. É o tipo de obra que te puxa para dentro da tela e te deixa em um canto do quarto de hotel acompanhando a trama. É como se você estivesse lá.
E é muito engraçado a forma como seus pensamentos se tornam ambíguos com a obra. Em vários momentos, eu me peguei pensando que aquela situação era positiva. Léo Grande parecia, na grande parte do tempo, não ter problema nenhum com isso. Mas, nos momentos em que você enxerga a fragilidade em torno do profissional do sexo, meu pensamento mudava completamente. É como se o filme me tornasse hipócrita, porque a cada momento eu questionava o meu próprio pensamento.
Até que o terceiro encontro aconteceu. E com ele, veio a frase que, para mim, foi a mais marcante do filme.
“Se quiser, pode pedir seu reembolso.”
Depois do surto de Léo Grande com a invasão de privacidade de Nancy, o personagem se veste, pega suas coisas, e vai embora. Enquanto faz isso, ele explode. Como se estivesse no limite dele com a situação.
E ele volta poucos segundos depois. Tinha esquecido o celular. E naquele momento, enquanto não consegue encontrar o aparelho, ele termina de surtar. Chora, e em completo desespero, desabafa com a sua cliente. Conta a história da sua mãe para Nancy, que sempre perguntava.
E quando ele finalmente encontra seu celular, ele simplesmente fala.
“Se quiser, pode pedir seu reembolso.”
É forte, uma frase cirurgicamente colocada. O filme mostra como os próprios profissionais do sexo se resumem a transações, a mercadorias. Léo Grande o trata, nessa frase, como se fosse um produto que, em caso de não agradar, pode ser devolvido para a loja.
Ele não leva em consideração o seu esforço e suas dores para estar ali. Ele não entregou o que era prometido, então, a outra pessoa podia pedir o reembolso. É uma frase simples, mas que carrega uma crítica social e uma reflexão tão poderosa que chega a ser surpreendente.
Boa Sorte, Léo Grande é o tipo de filme que te pega inteiramente desprevenido. Você se perde assistindo, enquanto seus pensamentos tomam forma, viajam. Você reflete junto com os personagens, junto com a obra. Você enxerga coisas que Nancy não enxerga, e admite outras que Léo Grande não admite.
O filme te faz interpretar não só a realidade vivida dentro da produção, mas a nossa realidade. E isso é muito poderoso.
“Se quiser, pode pedir seu reembolso.”
É o marco que te traz para a realidade fria. É uma frase simples. Mas é tão cortante e brutal como um bisturi de um cirurgião.
O filme ainda mostra o contexto de violações que os profissionais do sexo são submetidos. Fugindo do padrão, ele não é agredido, não é obrigado a fazer um “sexo violento” ou forçado. Aqui, a violência acontece de uma forma diferente: quando Nancy rompe as barreiras impostas e pesquisa para descobrir o verdadeiro nome de Léo Grande.
Foi uma tentativa da personagem de se conectar com ele. O jovem a tinha ajudado a desconstruir tantos tabus, a aceitar seu corpo e entender que ela não estava errada por querer experimentar o sexo. Por querer ser desejada.
Mas, no meio dessa tentativa, ela viola o personagem.
E no meio disso, existe toda a questão com a mãe de Léo Grande. Ele mente para Nancy durante os primeiros encontros, falando que dizia à mãe que trabalhava em uma plataforma de petróleo.
E Nancy começa a enxergar a atuação profissional do personagem como digna. E quer que a mãe dele enxergue isso, como se ele não precisasse mentir. Isso tudo, no meio do surto do personagem.
E ele conta, no meio do desespero, que a mãe dele o desprezava.
No terceiro encontro, em que ele surta, ele avisa para Nancy não contratar seus serviços, que ele não voltaria. Obviamente, com razão. Mas, mesmo falando que não voltaria, ele voltou.
E existe um quarto encontro. E é nesse momento que o filme mostra a mudança. O encontro, que até então ocorria em quartos de hotel, estava acontecendo na cafeteria do estabelecimento. Léo Grande, que antes só usava roupas sociais, perfeitamente arrumadas, agora estava usando roupas normais: capuz e suéter de lã, calça comum e uma camisa colorida simples.
É uma mudança sutil. Mas talvez seja uma forma de mostrar que o personagem estava mais confortável. Não sei ao certo o que essa escolha me passou.
Mas, uma coisa é nítida: Nancy não era uma simples “fofoqueira” que queria saber da vida de Léo Grande. Ela se deixou envolver por uma pessoa que a ajudou a superar anos intermináveis da sua vida monótona. Ajudou ela a gostar do que enxergava quando se olhava, algo que ela nunca gostou. Ajudou ela a entender o sexo como uma forma de prazer, não de promiscuidade.
Eu não consigo julgar Nancy por se deixar levar em um momento que não pedia isso.
Mas, também não consigo julgar Léo Grande por ter surtado com a invasão de privacidade de Nancy. Não consigo julgar Léo Grande por não gostar de descobrir que Nancy tinha se envolvido.
Como eu disse, é um filme complexo, com múltiplas interpretações da sua história, mensagem e reflexão. É até complexa a moralidade, uma coisa que muitas vezes é simples de definir em uma obra. Para muitos autores, talvez a parte mais fácil.
O quarto encontro vem como uma forma de redenção? Uma maneira de fazer as pazes? Eu sinceramente não sei. Certamente existem respostas interessantes para esse quarto encontro. Mas nenhuma errada.
No quarto encontro, você percebe que Léo Grande está um pouco mais aberto. Ele conta a história da sua mãe, como ela sentiu nojo de o encontrar fazendo sexo com outros amigos. De como ela passou a tratá-lo diferente. E de como a mãe o considera como “morto”. Contou que ela passou por ele na rua como se ele não fosse ninguém. Ele conta para Nancy que contou a verdade para o irmão, que ele não trabalhava em uma plataforma de petróleo, e que ele levou a situação como comum.
É nesse encontro que tudo fica ainda mais complexo do que parece. Porque mesmo em uma situação de vulnerabilidade, de fragilidade, ele conseguiu tirar algum proveito.
Então, é muito difícil sair desse filme com respostas claras. E grande parte disso, a profundidade do quarto encontro. De como Nancy se desculpa, de como ela fala dos erros que cometeu em seu passado, não somente com Léo. De como ela admite, para uma ex-aluna, que Léo Grande é um profissional do sexo que ela contratava. A mesma aluna que ela chamou de “vadia” enquanto era professora.
E fica mais complexo quando você percebe que foi Léo Grande que a ajudou nisso.
Mas, no quarto encontro, acontece o grande erro do filme. O deslize que não estraga o resto da reflexão, mas, na minha opinião, a faz perder força. Para algumas pessoas isso pode ser um grande acerto. Para mim, não.
Depois de mostrar os dois lados da moeda de ser um profissional do sexo, o filme terminar com vários encontros de Nancy e Léo Grande é algo que reduz a força de reflexão do quarto encontro. Eles conversam profundamente no café, e depois sobem para o quarto para transar. Isso, para mim, reduz o quarto encontro ao que basicamente foram os outros. É um erro na construção de redenção, fragilidade e de se libertar das amarras do passado.
Eu entendo que o pensamento possa ter sido de que, no fim, ele escolheu e escolhe aquela vida. E faz sentido, não é um cenário errado. Mas eu não acho bom. O longa até poderia ter abordado essa parte da escolha de Léo Grande, mas com outra personagem.
Para mim, o ciclo dos dois teria se encerrado de uma forma muito melhor se eles simplesmente tivessem conversado e encerrado. Para outras pessoas, isso teria sido ruim. Mas, eu não vejo sentido nessa conversa ter virado um novo ciclo de vários e vários encontros, onde os dois personagens estão perfeitamente bem com a situação e tranquilos com tudo. Perde um pouco do seu efeito reflexivo.
Para mim, não foi a escolha mais assertiva, o que não quer dizer que é ruim ou errada. Só não é boa o suficiente e condizente com o que o filme gasta tanto tempo construindo.
É como se, no fim, tudo se resumisse em Nancy, no poder dela como pagante. Sendo que sempre foi muito mais profundo do que isso. Sempre foi a relação dela em ter buscado um profissional do sexo, por seus desejos e tabus sexuais. E depois, da complexidade desses profissionais.
E para mim, perde o efeito quando ela volta a tratar isso como uma simples transação que vai fazê-la chegar no seu objetivo.
Durante o filme, existe até uma conversa sobre a regulamentação dos profissionais do sexo. E é engraçado, porque a obra em si já causaria esse efeito. Mas, quando se tem essa repetição desnecessária de encontros, o filme perde um pouco da emoção.
Terminar com “Eu vou escrever um comentário elogiando no site” depois de ter tido “Se quiser, pode pedir seu reembolso” me parece desperdiçar potencial.
E aí. “Adeus, Léo Grande.” Seguido de um boa sorte, uma despedida e um caminhar solitário do profissional do sexo sorrindo.
Novamente, não me parece a escolha mais acertada. Mas, o final acerta na forma como a personagem passa a gostar do seu próprio corpo, algo que nunca tinha sentido.
Então, mostra que o filme é muito além do que “profissionais do sexo” são certos ou errados. É sobre aceitação, identidade e construção de uma reflexão que transcende a tela.
E o verdadeiro final não é a despedida com o Léo. Não é o sorrisinho do Léo caminhando sozinho na rua. É a personagem Nancy se olhando no espelho e ressignificando anos de sua vida.
Isso o filme entrega, e muito.
Às vezes, de maneiras mais eficazes que outras. Mas os “erros” não anulam os acertos. Quem pensar que anula, deveria rever seus conceitos.
Os aspectos técnicos do filme ajudam a sustentar toda essa atmosfera de reflexão. A direção inteligente de Sophie Hyde é de uma sensibilidade e de uma visão de mundo que poucos diretores possuem. A forma como as câmeras são posicionadas, como capturam a essência do quarto de hotel, as divergências entre os personagens e a forma como a atuação é direcionada mostram que uma direção bem-feita não precisa ser completamente inovadora, mas funcional dentro do que o filme pede.
As atuações são o grande destaque. Emma Thompson e Daryl McCormack entregam performances de altíssimo nível. É impressionante como o ator não perde o foco e não se deixa intimidar atuando ao lado de uma veterana tão respeitada dentro do cinema.
Emma Thompson conseguiu entregar uma evolução de personagem que é digna do que seu nome carrega. Um dos nomes mais respeitados do cinema mundial, ela prova, mais uma vez, o porquê de ser tão admirada. A personagem começa o filme tensa, com um olhar que parecia sempre procurando alguma coisa para se concentrar, em vez de olhar para o parceiro de cena.
Isso constrói perfeitamente a imagem de Nancy, que tinha vergonha só de imaginar estar acompanhada de um profissional do sexo. E Emma Thompson consegue entregar isso de uma maneira muito boa. A postura, a forma como a personagem se porta vai mudando completamente à medida que os encontros acontecem. Ela consegue evoluir o corpo, o olhar e a expressão juntamente com a personagem. É de uma precisão impressionante.
Já Daryl McCormack não se intimida de estar ao lado da grande atriz que é Emma Thompson. Diferente de muitos atores com menos experiência, ele consegue se destacar mesmo compartilhando cena com a gigante. A maneira como ele constrói um personagem confiante, com raras oscilações de vulnerabilidade e no final, uma atuação impressionante durante o momento do surto e durante a conversa na cafeteria mostra sua habilidade e talento para construir um personagem complexo.
O figurino do filme também é outro ponto de destaque. As roupas dos personagens vão mudando à medida que os encontros vão acontecendo. Nancy se torna mais ousada, Léo continua elegante, sempre com uma vestimenta social como se tivesse sido feita para ele. E no final, ele aparece com roupas confortáveis, e continua a usá-las. Isso mostra a transformação sem precisar explicá-la.
Por fim, a fotografia e a montagem colocam a cereja do bolo, acompanhando o filme exatamente da forma que ele precisa. A forma como o quarto de hotel é retratado, os tons, os momentos de maior luminosidade e de menor luminosidade. Foi tudo perfeitamente calculado e muito bem colocado. E a montagem entrega o que uma obra mais precisa: saber exatamente quando a cena deve ser interrompida e substituída por outra imediatamente.
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