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Crítica: A Odisseia

  • Foto do escritor: Vitor Romero
    Vitor Romero
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Christopher Nolan foi superestimado em A Odisseia.

E isso é completamente diferente de ser ruim. Nolan já provou que não é um diretor qualquer. Ele entende de técnica, de narrativa e trabalha para o cinema de forma que muitos não fazem.

Se eu pudesse definir Nolan em uma única palavra, seria prático. Ele faz do cinema uma construção de efeitos práticos, recorrendo a computação gráfica quando realmente é necessário, e sempre para aperfeiçoar algo que existe nos sets de gravação.

Mas isso não o torna excepcional. Pelo menos não em A Odisseia. 

Mesmo com sua qualidade em optar pelo prático quando tudo parece migrar para a computação gráfica, Nolan cometeu quatro grandes erros na produção.

O primeiro erro é a duração do filme: 02h52. A Odisseia era uma história que poderia ter tido mais impacto se tivesse menos tempo de tela. É estranho pensar isso em um primeiro momento, mas nem toda narrativa precisa de muito para ser contada. Quando um filme tem mais duração do que ele precisa, o ritmo é afetado, e prejudica toda a engenharia.

Esse problema foi visível em algumas cenas, que foram muito arrastadas, mais lentas do que o necessário. Nem toda construção funciona. Isso aumenta diretamente o tempo do filme, que poderia ter sido mais bem trabalhado em 02h10 ou 02h20.

Acho que a cena mais evidente de todas é um foco muito grande em algumas passagens específicas na volta dele para casa. Muitas cenas funcionaram, sim. A cena que ele encontra a feiticeira, Circe. Ou quando ele está na praia, com Calipso. Mas as cenas do mar, na minha visão, não foram completamente eficientes.

E isso, em muitos momentos, tornou o filme um pouco cansativo. E não pela história, mas pela forma como foi construído.

O segundo erro foi o elenco. A Odisseia conseguiu fazer algo que poucos filmes fizeram na história: reunir um elenco tão grande e tão relevante dentro de Hollywood. Alguns dos maiores nomes do cinema da atualidade estão nesse filme. Possivelmente, se tornou o maior elenco do ano.

Porém, na mesma proporção de grandeza, Nolan não conseguiu aproveitar muito bem esses atores renomados. Faltou direcionamento eficiente para todos esses nomes à sua disposição.

Em uma análise individual, três nomes se sobressaem: Anne Hathaway, Tom Holland e Zendaya.

Anne Hathaway entregou uma atuação muito boa. Porém, ela é uma atriz que já se mostrou gigante, com uma presença muito forte no cinema. É aquela atriz que possui um magnetismo: logo quando entra em cena, os olhares se fixam nela. Em Os Miseráveis, obra de 2012 em que ela interpreta a personagem Fantine, sua capacidade dramática e de atuar, expressando os sentimentos de uma forma mais contida, ficou muito mais clara do que em A Odisseia. Não é que Anne Hathaway tenha atuado mal: é que ela não atuou no nível que ela consegue.

Tom Holland segue na mesma linha. Em O Diabo de cada dia, ele mostrou uma atuação repleta de nuances e carregada emocionalmente. Sua capacidade em entregar drama foi explícita. Mas em A Odisseia, ele ficou apagado. A sua atuação não é de um herdeiro do trono, mas sim de um outro personagem com menos relevância para a história. E isso é ruim, porque ele mostra ser o herdeiro em diálogos, mas não na ação.

Zendaya, para mim, é a atriz com mais baixo aproveitamento de elenco de todos. Ela interpreta Athena, uma personagem com importância central para a obra e diretamente ligada a Odisseu. Porém, a condução da sua atuação não ocorreu de uma forma satisfatória, que permitisse Zendaya mostrar seu real potencial dramático, que já foi visto em outras produções. Em Euphoria, no episódio 5 da segunda temporada, Zendaya proporciona uma atuação com grande peso dramático: um surto de Rue. Na cena em específico, ela quebra fisicamente tudo que está em sua frente, e depois, a personagem desaba mentalmente. Diante de frases tão carregadas de drama e subtexto, sua capacidade fica evidente nessas falas: “Você queria que eu fosse diferente? Eu também! Você me odeia? Eu também!” Isso é a atuação que ela é capaz de fazer. E eu sinto que a Athena poderia ter sido muito superior se ela tivesse sido mais bem aproveitada.

Nesse cenário, é realmente difícil acreditar que o problema esteja no elenco. Que Anne Hathaway, Tom Holland e Zendaya não tenham demonstrado seu potencial mesmo com uma condução boa, quando, justamente o que faltou, foi uma direção mais assertiva.

O terceiro problema nas escolhas de Nolan foi retirar uma piada que além de fazer muito sentido, era central na obra original. Quando Odisseu ataca o Ciclope, ele não tinha se identificado como Odisseu. Ele era o Ninguém. Então, o ciclope sai gritando. “Ninguém está me atacando”. Essa piada traz um humor inteligente para a obra: se ninguém estava atacando, não existia ameaça. Esse, obviamente, não é uma falha que deva virar um monólogo sobre a capacidade de Nolan, mas sim, uma escolha errada. Porque essa cena presente no filme, não é apenas humor, que por si só já justificaria: é uma prova da inteligência do protagonista.

E o quarto grande problema, na minha visão, é justamente o IMAX. Eu não vejo sentido em gravar um filme inteiramente em uma tecnologia que somente cerca de quarenta salas de cinema no mundo são capazes de reproduzir. Isso cria problemas perceptíveis para a obra: o corte do que foi gravado e o distanciamento dos atores.

Devido a máquinas muito grandes da tecnologia IMAX, o elenco não poderia gravar se observando. Para isso, espelhos eram posicionados, refletindo um ator para o outro.

Essa tecnologia precisou de várias alternativas para burlar todas as suas limitações, como o espelho, o corte rápido das cenas por causa da curta capacidade de tempo de gravação e o baixo aproveitamento de salas de cinema. Quando isso acontece, os desafios superam as vantagens de maior qualidade da imagem ou imersão mais completa na obra.

Porém, mesmo com escolhas erradas, Nolan tem um ponto muito forte a seu favor: fazer cinema com efeitos práticos. Atualmente, é difícil um diretor que opta por efeitos práticos mesmo quando existe computação gráfica. Mas, assistir um filme em que grande parte das cenas são práticas, torna a experiência diferente.

Não é que Nolan seja fora da curva. Mas é um dos poucos que ainda mantém uma essência que deveria ser mais forte no cinema.

Nos aspectos técnicos, o filme não deixa a desejar. A fotografia é excelente, beirando o sensacional. As cores e a atmosfera acompanham o momento, a tensão e as batalhas. Os tons do mar mudam quando ele deixa de ser convidativo e favorável e passa a ser hostil. Isso é fotografia de qualidade, uma fotografia acertada.

A trilha sonora acompanha a fotografia. É outro acerto do filme, que consegue seguir a cena, entrando com uma sonografia extremamente precisa.

O figurino também é um destaque para o filme: muito condizente com a época em que ele se passa, e acima de tudo, sem modernizações desnecessárias. Foi básico, mas foi bem-feito, e isso é melhor do que uma inovação sem sentido.

Nolan acertou e errou em A Odisseia. Ele não fez o maior trabalho da sua vida, mas nem de longe é uma produção que deva ser queimada e jogada no lixão da Carminha, de Avenida Brasil. 

Porém, suas escolhas nos deixam com quatro reflexões:

Nem sempre o mais longo é melhor que o mais curto ou consegue mostrar mais coisas.

Nem sempre um elenco fantástico é bem aproveitado.

Nem sempre a inovação é o melhor caminho.

E, muitas vezes, o humor é essencial até no drama.

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