Insônia: por que as pessoas não dormem?
Dormir não é simplesmente fechar os olhos e desligar o cérebro. Para dormirmos uma boa noite de sono, diversos mecanismos corporais devem ser ativados e desativados, para que o equilíbrio entre hormônios de sono e vigília sejam liberados ou inibidos. Para pessoas que têm insônia a pergunta “se estou exausto, por que não consigo dormir?” faz parte da rotina e, de fato, é um questionamento pertinente, afinal, não basta ter sono para dormir? Não. E é isso que vamos entender hoje!
Fisiologicamente, dependemos de dois processos para iniciar a sensação de sonolência. Existe o processo S, que enquanto estamos acordados, gera uma “pressão de sono”, ou seja, ele sinaliza para o cérebro durante o dia que precisamos de repouso em algum momento e quando dormimos, essa pressão desaparece. Além disso, existe o processo C, que é regulado pelo nosso relógio biológico, o chamado núcleo supraquiasmático. Quando ocorre redução da luminosidade, nosso corpo libera o hormônio melatonina e isso se consolida como um sinal de que é hora do organismo entrar em repouso. Nesse sentido, esses dois processos, juntos, regulam a fisiologia do sono. Mas, então, o que pode dar errado e gerar insônia?
Na insônia, não existe um mecanismo isolado responsável pela desregulação, mas sim um conjunto de fatores. Algumas pessoas são mais vulneráveis a desenvolverem esse quadro do que outras, devido à genética, estado psicológico e características individuais. A presença de gatilhos também contribuem para o estresse mental e físico, que podem gerar falta de sono. Por fim, quando esse quadro se torna rotineiro na vida de uma pessoa, ela começa a modificar sua relação com o sono e quando vai dormir começa a pensar “preciso dormir hoje”, “se não conseguir dormir, amanhã não vou render no trabalho” e outros pensamentos similares. Isso faz com o que o relógio biológico fique em vigília e não atue de forma correta.
Dito isso, uma noite ruim, causada por algum gatilho, pode gerar um quadro de insônia prolongado, uma vez que o indivíduo começa a se preocupar com a quantidade de sono que está tendo por noite, se vai conseguir dormir, se tem um sono de qualidade e acaba entrando em um estado de vigília quando deveria estar mandando sinais de repouso para o sistema nervoso. Isso gera um ciclo de manutenção da insônia, que ativa, de forma constante, o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, responsável pela regulação do estresse pela liberação hormonal. Assim, ocorre uma disputa entre os mecanismos que favorecem o sono e os que promovem a vigília.
Esse ciclo também modifica a relação do indivíduo com o próprio ato de dormir. Na tentativa de recuperar as horas perdidas, a pessoa pode passar a encarar o sono como uma tarefa que precisa ser cumprida, monitorando constantemente o relógio, calculando quanto tempo ainda poderá dormir ou tentando “forçar” o sono. Paradoxalmente, quanto maior o esforço para adormecer, maior pode ser a atenção direcionada à própria dificuldade, mantendo a mente ativa em um momento em que o organismo deveria estar entrando em repouso. A cama, que antes era naturalmente associada ao sono, pode então passar a ser associada também à preocupação, à frustração e à vigília.
Assim, fica claro que a insônia é muito mais do que simplesmente não conseguir dormir. É uma condição que pode se infiltrar nos pensamentos, alimentando novas preocupações que vão além daquelas que deram origem ao problema. Aos poucos, o medo de não dormir e a própria tentativa de controlar o sono podem contribuir para manter esse ciclo. Compreender esses mecanismos é, portanto, fundamental para reconhecer a insônia como um problema real de saúde — e não como uma simples falta de força de vontade para dormir.
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