Caso Indefinido - Versão Estendida

Saudosa São João del-Rei.
Te considero um mal necessário. Eu não gosto de estudar aqui. A cidade é meio parada, com muitos problemas. Acho que ninguém gosta de vir para cá.
Mas todos estamos aqui. Saímos do conforto do café quentinho da vó ou do bolo de cenoura da mãe. Saímos do abraço acolhedor da cidade natal para o vento frio dessa cidade... infernal?
Acho que quem quer que seja não gostou muito dessa minha frase. O ônibus acertou um buraco e eu quase bati com a testa no teto.
Essa cidade é confusa. Muito confusa.
Me prometeram calor. Está fazendo frio.
Quando me prometerem o frio, vai fazer calor.
Sair da cidade em que moramos é desafiador. Lá, já conhecemos tudo. Sabemos como as estações do ano funcionam. Ou quais são as melhores lojas e os melhores supermercados.
Aqui, não. Precisamos enfrentar um novo problema a cada momento. Não saber qual é o lugar mais barato ou qual loja tem as opções de roupa que gostamos. O bar com as porções mais saborosas. Não sabemos de nada.
Tudo vira uma confusão. Você se perde em qualquer coisa, nas nuances de cada problema.
E eu moro sozinho. Tem quem prefira morar em república, tem quem precise morar em república. Isso tudo entra nos custos de se realizar um sonho.
Sinceramente, não sei se existe uma resposta certa para a pergunta que estou prestes a fazer.
Qual é o preço de um sonho?
Um sonho cobra caro. Isso é a única coisa que eu consigo afirmar. Todo sonho tem seu preço. Nesse caso, são quatro anos longe de casa, longe de tudo.
Claro, construímos uma vida nova. Fazemos novas amizades, conhecemos melhor a cidade. Mas existe saudade da vida antiga.
Cidade até rima com saudade.
E o passado? Esse sempre está batendo na porta.
Mas quem me dera se o preço de um sonho fosse só esse. Essa é a parte em comum entre muitos estudantes. Mas, para muitos, o sonho ainda vai cobrando mais e mais caro.
A cada dia que passa, ele aumenta o valor.
Não existe indexamento dos preços de um sonho. O sonho não é um aluguel.
Eu sinto falta de como as coisas eram fáceis antes da vida adulta. E de como tudo fica fácil nas férias. Ou melhor, no recesso. Não posso chamar trinta dias de férias.
Nossa, como eu queria continuar em casa. Continuar de férias, sabendo que meu sonho está esperando, que as aulas ainda não voltaram.
Mas agora, aqui é minha nova casa. Já estou aceitando isso. Mas prefiro não nomear meus sentimentos com essa cidade. Ainda é um Caso Indefinido. Sabe, tipo aquela música do Cristiano Araújo.
Não é que eu ache que a cidade é inteiramente ruim, que as aulas são péssimas e os novos amigos insuportáveis. Às vezes eu acho isso, sim.
Mas, na grande maioria do tempo, é só que nada se compara às nossas origens. Pelo menos, para mim.
Acho que estou ficando redundante no que quero falar. Já falei umas três vezes a mesma coisa, em palavras diferentes.
Mas eu realmente não sei o que pensar. Só sei que, dentro desse ônibus, indo em direção ao meu sonho, pela segunda vez no ano, a angústia me domina.
E acho que nada é mais redundante do que a angústia.
E são tantos motivos para estar angustiado que eu não consigo escolher um só. Todos são incrivelmente válidos.
E o que eu faço?
Não tenho como gritar para o motorista dar meia-volta com o ônibus e voltar para minha cidade.
E nem se tivesse como. A decisão de perseguir meu sonho já foi tomada há muito tempo, e independentemente do preço, eu vou sustentá-la. Até o final. Com ou sem angústia. Querendo ou não.
Mas estou angustiado. Não estou querendo.
Então saí escrevendo qualquer coisa. Só para tentar entender meus próprios sentimentos.
Spoiler: não tem resolvido muito.
Estou ficando pior. Porque estou entendendo a magnitude de tudo que estou deixando para trás. A magnitude de perder os momentos com minha vó, que já está idosa. De deixar minha mãe por tanto tempo. De não ver minha irmã mais nova se formar no ensino médio.
Mas também estou percebendo a grandiosidade de tudo que estou indo buscar.
As pessoas saem de casa por motivos diferentes. Uns querem liberdade, outros não se dão bem com os pais. E eu? Eu saí porque quero ser exemplo para minha irmã mais nova e dar uma velhice digna para aqueles que me deram uma vida digna.
E é esse peso que eu carrego em cada aula, em cada trabalho, em cada prova, em cada projeto.
Em todo momento da minha vida, é esse o peso que eu carrego.
Não é um peso ruim. Eu que escolhi carregá-lo. Ninguém nunca me pediu. Mas, às vezes, ele me cansa. Porque é como se eu não pudesse falhar.
Mas, na grande parte do tempo, é o que me dá força.
Fazer faculdade é complicado. Muito complicado. Mas, acima de tudo, é muito bom estar em uma.
Bem-vindo, segundo semestre.
Publicado originalmente na VAN – UFSJ. Acesse a publicação original:
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