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Parafusos do Inconsciente

  • Foto do escritor: Vitor Romero
    Vitor Romero
  • 17 de jul.
  • 4 min de leitura

 

Todos nós temos uma prateleira em casa que está prestes a desmoronar. Sabe aquela prateleira que você passa e nem olha com medo dela desabar? É essa. A escolha de ignorá-la se torna uma forma de evitação. Basta um simples olhar torto para que ela despenque. Basta uma voz mais alta para que as vibrações das cordas vocais sejam suficientes para fazer com que ela se espatife no chão frio e duro. E junto dela, tudo que ela impressionantemente aguenta.

É engraçado como o medo nos torna ineficientes. Engraçado? Estranho? Não sei. O medo da prateleira despencar tem mais força do que a vontade de a manter de pé. E não é porque ansiamos por algo melhor. Mas o medo sempre parece mais forte. Ele é paralisante, como aquelas balas que eles usam em animais que fogem no zoológico.

É curioso como um parafuso bambo diz mais sobre nós do que uma monografia que levaríamos anos de nossa vida para escrevermos. Um parafuso bambo não pode ser manipulado com palavras bonitas, requintadas, tiradas direto de um dicionário. Ele mostra nossa essência. É um espelho que espalha nossa imagem interior para o mundo.

Mostra como somos dentro. Seres paralisados pelo medo. Seja de agir, de reagir, de desistir.

Essa prateleira vive em uma roleta russa por mais tempo do que qualquer um planeja. Em alguns casos, ultrapassa os meses, invade os anos e nos consome por todo esse período.

E mesmo assim, não temos coragem de consertá-la. Então, chega uma hora que o parafuso bambo já não se sustenta. Então, ela desaba. Tudo que estava ali, exposto, cai junto com ela.

Aquela prateleira, capenga, capaz de fazer um estrago irremediável, em segundos não existe mais. Talvez você tenha criado coragem de finalmente tirá-la, antes que desabasse. Ou, ela simplesmente caiu. Os dois jeitos levam ao mesmo caminho. Ao fim.

E no lugar dela, você percebe que já poderia ter colocado uma bela estante de madeira de peroba rosa. Ou de pau-brasil. Tanto faz.

Para se ter o novo, primeiro é preciso deixar o velho partir. Ir embora da nossa vida sem passagem de volta. E isso não é nenhuma garantia que você não vai sentir falta da fatídica prateleira. Que esteve ali, naquele mesmo lugar, por tantos anos. No começo, era tão bonita, tão bem parafusada. Depois, ela foi perdendo o viço. Os parafusos foram bambeando. E ela foi descendo, cada vez mais.

Até que ela se vai. E você provavelmente vai chorar isso. Não pela prateleira que já estava ruim. Mas pela lembrança do começo. De quando ela aguentava tudo que fosse colocado sobre ela. Eu recomendo que você chore. Deveríamos chorar mais vezes. Seríamos bem mais felizes.

Se passássemos mais tempo deixando as coisas despencando do que segurando, teríamos uma vida mais leve. Nossas mãos já estão abarrotadas de coisas. Qual o sentido de tentar segurar uma coisa que já não tem mais serventia? Não é a mesma prateleira do começo. Já não tem mais livros, porta-joias e o que mais coubesse.

Existe o desgaste, o peso e o anseio pelo fim. Muito se engana quem acha que o fim não é positivo. É melhor encerrar uma história e iniciar outra, do que tentar dar uma continuação a uma saga que já deveria ter tido fim no terceiro livro. E você continua tentando escrever o oitavo. Por quê?

Não tenha medo de chorar, de esbravejar, de sentir. Faz parte do processo. Acho que, a essa altura, você já tenha percebido que esse texto não é sobre o raio da prateleira.

E tudo bem não ser exatamente de um material. Podemos deixar que a nossa vida despenque às vezes. Podemos simplesmente dar fim ao que não funciona, mesmo que tenha sido um começo maravilhoso.

Aquele frio da barriga antes de ir conhecer alguém. O medo de não gostar.

Mas às vezes precisamos recomeçar. E tudo bem.

Porque, em algum momento, uma nova prateleira vai surgir. Novas sensações vão aparecer. Então não espere que tudo despenque para se permitir viver algo nosso.

E quando você tem uma nova prateleira, você começa a ter mais cuidado para mantê-la. Você sabe que nem tudo deve ser colocado sobre a prateleira dos seus sentimentos. E a cada vez que você caiu, ressurgiu mais forte.

E mais seletivo.

Você não impede que pessoas ocupem a prateleira. Você só passa a ter um critério melhor sobre quem deveria ou não fazer esse peso na sua vida.

Relacionamentos antigos não funcionam mais. Situações em que você se permitia estar se tornam impossíveis de se submeter novamente. Tem um peso muito grande para uma prateleira que é muito importante.

Tem pessoas que valem a pena se colocar com toda a delicadeza. Outras, é melhor que se espatifem no chão e sumam logo.

É melhor uma parte da prateleira vazia do que cheia de coisas que não vão te fazer bem. Ser seletivo não é ser fechado. É ser mais protegido, menos suscetível. É estar disponível para a vida, sem permitir que suas adversidades te vençam por anos, assim como a prateleira já fez.

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