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Urgência e Emergência

Foto do escritor: Vitor Romero
Vitor Romero
5 de ago.
3 min de leitura

Que país é esse?

Não respeitam a constituição, e acreditam no futuro da nação.

Eu descobri isso do pior jeito possível. Quando eu precisava de ajuda médica, um direito assegurado na tal constituição que eles tanto falam.

Nas campanhas políticas, eles prometem tudo. Promessas que marcam a vida pública de um candidato à prefeitura.

A saúde de São João del Rei vai melhorar como nunca antes.

Vamos ser reconhecidos com tamanha excelência do nosso trabalho.

Vamos zerar as filas de exames.

Palavras, apenas. Palavras, pequenas.

Pareceram as mil maravilhas. Pelo menos para mim. Até que precisei usar a saúde pública da cidade, no mandato do prefeito. Cheio de Palavras ao Vento.

Fui marcar um exame. O médico disse que era urgente, e colocou no pedido, em todas as letras. Acho que as pessoas não sabem o significado de urgência. Marcaram meu exame para três meses depois.

Eu discuti com os agentes de saúde, mas o que eles poderiam fazer? A culpa não era deles. Eles carregam a seringa na mão, os curativos. Quem é realmente culpado é quem segura a caneta.

Acho que todos perceberam que todas as promessas de campanha não passaram de... palavras. Afasta de nós esse cálice, pai.

Eu não acredito que alguém, gozando de plena consciência, acredite que um prazo de três meses, para realização de um preventivo de urgência em suspeita de câncer do colo do útero seja aceitável.

Eu realmente não acredito.

Durante esses três meses eu convivi com minha mente agoniada. Todos os dias ela me perguntava a mesmíssima coisa.

E se eu estiver com câncer?

Bom, se esse exame vier positivo eu estou ferrada, para não falar uma coisa pior. Aqui, sentada na sala de espera de uma UBS em decadência, eu afirmo: estarei morta em pouco tempo se o exame confirmar um câncer.

Se três meses atrás era uma urgência, meu possível câncer hoje se tornou uma emergência. 

Será que nesses três meses eu dormi de conchinha com um câncer? Quem sabe eu arrumei um companheiro de vida.

Será que nesse tempo eu deveria ter dado um nome para ele? Talvez um apelido. Deveria ter procurado padrinhos e madrinhas para batizá-lo? Teria dado tempo até de registrá-lo em um cartório.

Suspeita de câncer não é suspeita de gravidez. Se um câncer cresce, não é como um bebê, que depois de nove meses se encerra o ciclo. Depois de nove meses com um câncer que já era urgência três meses atrás, meu único destino é caixão e vela.

E velas artificiais, porque os velórios não têm coragem de acender uma vela verdadeira para o defunto.

- Pensando na vida? – Perguntou uma senhora simpática, ao meu lado.

- Nem sei sobre o que estou pensando. – Eu respondo, com sinceridade.

- Já estamos aqui a quatro horas. – Ela fala, olhando o relógio.

- Desde a época de Elis Regina o sinal já estava fechado para nós. – Eu falo, lembrando da minha música preferida.

- Nós não somos nada para esse povo. – A senhora fala, olhando para o chão. – Se morrermos, só seremos mais um na contramão, atrapalhando o tráfego.

A profissional da saúde me chamou. Me despedi da senhora e entrei na sala. Não sei ao certo se ela é médica ou enfermeira. Não sei quem faz o preventivo.

Preventivo. Que ironia. Que palhaçada. Deveriam mudar seu nome para tampa de caixão. Porque para prevenir decididamente não é.

Quando eu entro na sala, a mulher me atende super bem. Ela pisou forte no chão, e quando eu olhei, eram duas baratas que estavam andando por ali.

- Desculpe. – Disse ela. – A situação não é boa.

Ela aponta para outras baratas mortas, depois para a cadeira enferrujada e por último, para o teto já sem reboco por causa da infiltração.

Eu realmente devia ter batizado meu possível câncer. 

Ela fez o exame com uma delicadeza que prova que a culpa não é dos profissionais. A culpa é de quem segura a caneta.

- Seu resultado sai em sessenta dias. – Ela falou, sorrindo. – Se quiser, pode ligar depois de trinta dias para ver se já ficou pronto.

Eu não retruquei. A situação já era ruim por completo. Vesti minha roupa e saí.

Sei que tem uma funerária aqui perto. Acho que é mais fácil eu tentar fazer um plano funerário do que fazer um exame.

Pelo menos, se o câncer vir, meus parentes não vão ter que se preocupar em pagar meu funeral. Porque acho que pelo menos a um funeral eu tenho direito.


Publicado originalmente na VAN – UFSJ. Acesse a publicação original:

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ATENÇÃO: A crônica aborda conteúdos sensíveis relacionados a saúde mental e suicídio.

 
 
 
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