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Flor de Maio

  • Foto do escritor: Vitor Romero
    Vitor Romero
  • 10 de jul.
  • 3 min de leitura

As pessoas olham pra mim e falam que eu nunca estive tão bem. Ilusão a delas. Eu só aprendi a conviver com a dor.

Quando você partiu, eu não senti nada. Eu olhava pro seu corpo gelado, mas não me vinha a tristeza que eu imaginava. Eu não sei o que eu esperava sentir quando dei um beijo na senhora. Mas não sentir a dor que eu viria a sentir foi uma surpresa. Minha madrinha até me trouxe em casa pra eu pegar um livro pra ler no seu velório – e eu nem tinha o hábito de ler naquela época.

Você morreu cedo, perto das 06h00. Acordei com minha mãe gritando em desespero. Esperou o dia amanhecer pra morrer. Não gostava de dormir à noite, quem dirá morrer.

Até nisso somos parecidos. Muitos relatam a semelhança da nossa aparência. Mas eu vejo mesmo a semelhança em nossas personalidades. Eu sou apenas uma versão de você.

Tenho os mesmos gostos que a senhora, sabia? Amo assistir debates políticos, e também tenho uma vontade de ter uma lojinha, igual a senhora tinha. Sabe os shows de drag queens que você tanto gostava? Então, eu também gosto. Será que hoje eu escrevo livros porque um dia você inventou histórias pra mim? Não sei.

Tenho tantas lembranças de você. Em um dia normal, elas parecem poucas, porque nunca vêm em um tsunami. Mas agora que sento e escrevo esse texto, eu vejo que os onze anos da minha vida que passei ao seu lado me renderam uma lista enorme de memórias.

Eu tinha onze anos quando você se foi. Em fevereiro, no meu primeiro dia de aula na escola nova, minha primeira aula do sexto ano, você estava sentada na copa, me olhando dançar com o uniforme. Em abril, você se foi. E eu não senti nada naquele dia.

Não sei se não deu tempo do meu corpo programar o desastre, ou se meu cérebro simplesmente se apagou propositalmente. Eu não sabia a gravidade da situação, acho que isso ajudou. Quando você foi para a UTI, eu achei normal. Na minha cabeça, era só mais um caso complicadinho, mas que logo se resolveria.

Eu brincava de ser médico nas horas que não estava brincando que era seu professor. E meus pacientes fictícios quase não iam para a UTI, e quando iam, no dia seguinte tinham alta. Eu raramente matava um paciente. A morte me parecia muito distante ainda.

Às vezes eu xingo e fico amargurado com a vida. Maldito seja o fêmur que quebrou, maldito seja o anticoagulante que impediu a cirurgia rápida e maldita seja a bactéria que estava a espreita no centro cirúrgico. Maldito seja o antibiótico que não fez efeito. Maldito seja o pulmão de uma fumante.

E as pessoas falam que eu superei. Não, nem um pouco. Eu acostumei. O luto é como a flor de maio. Ele sempre está ali, no seu jardim. E você vai plantando outras coisas em volta, mas ele fica ali. Em algum momento, ele volta à tona, e parece que o sofrimento nunca vai passar. Mas passa.

O luto não diminui. Somos nós que crescemos em torno dele. A vida continua, obrigada. Você tem que seguir, querendo ou não. Você faz novas amizades, se aproxima da sua família. Você aumenta sua vida. E o luto fica pequeno comparado ao lugar que você chegou. Mas ele não diminui. E nem vai embora.

Não se supera a morte. Aceita-se a morte. É possível sentir saudade e seguir a vida. Como disse Raul Seixas, “eu prefiro ser, essa metamorfose ambulante”. Precisamos nos transformar e encontrar conforto nas pequenas coisas, nas pequenas memórias.

Pouco tempo depois que a senhora se foi, uma música explodiu. Impressionando os Anjos, do Gustavo Mioto. Eu me lembrava da senhora toda hora que a música tocava... na rádio, principalmente. “Sei que agora deve estar impressionando os anjos, com sua risada”.

Eu dizia isso. Que você estava impressionando os anjos. Mas no fundo, eu odiava cada ouvinte que ligava pedindo essa música.

Porque eu odiava lembrar da senhora. E a música me fazia lembrar da senhora. Porque a dor que eu não senti no dia, nem no dia seguinte, me atravessou muito forte nos próximos meses. E ela ficou. Por cinco anos, eu vivi uma depressão que achei que nunca fosse superar. Você me fez muita falta. Você me faz muita falta.

Até hoje acho que foi você que me tirou da depressão. Não vou esquecer daquele sonho, você sabe qual. Nem dos amores em quatro patas que surgiram na minha vida.

Eu não te superei. Quem superou, não chora escrevendo um texto. Mas eu tive que seguir. Porque é impossível que um dia eu sinta menos a sua falta, de querer você aqui.

Te amo, vó.


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