Prisão sem Grade
- Vitor Romero

- 6 de jul.
- 16 min de leitura
Nota do Autor
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Esta obra é uma ficção literária criada com o objetivo de conscientização e reflexão sobre os impactos da criminalidade, da violência e das escolhas individuais. O conto aborda temas sensíveis como tortura, estupro, assassinato e suicídio, não com o intuito glorificar, mas sim de denunciar realidades que muitas vezes são ignoradas ou simplificadas.
O personagem narrador é fictício e representa um retrato extremo da degradação humana causada por uma vida de crimes. Suas falas e pensamentos não refletem as opiniões do autor, mas sim a voz de uma consciência em ruínas, que busca, mesmo em meio ao sofrimento, algum tipo de redenção ou entendimento.
A obra não deve ser interpretada como apologia ao crime ou à violência. Pelo contrário.
Se você chegou até o fim da leitura, espero que tenha refletido. Que tenha sentido o peso das escolhas. Que tenha compreendido que, por trás de cada estatística, há uma história, e que, muitas vezes, o pior castigo não é a morte, mas a sobrevivência sem dignidade.
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Eu morri!
Esse foi o primeiro pensamento que veio à minha cabeça. Em um momento, eu estava olhando nos olhos do meu melhor amigo, meu parceiro, o futuro padrinho do meu filho. No outro, eu estava caído, com uma dor agonizante na coluna.
Me lembrei do barulho do tiro. Três disparos.
A morte me circundava, como o sol cercando a chuva no verão. Mas não chegava. Se aproximava, ria da minha situação, das minhas escolhas, e me deixava. Até que a escuridão me consumiu.
Quanto tempo eu fiquei desmaiado?
Esse foi meu segundo pensamento. Eu não conseguia me mover, e isso me causava um pânico que não consigo descrever. A luz da ambulância refletia no céu noturno. A voz de uma senhora invadia meus ouvidos.
- Eu encontrei ele voltando do trabalho. Estava aqui, caído nessa sarjeta. Não tinha nada, ninguém perto.
Quando me ergueram para me colocar na ambulância, a sensação foi de que estavam rasgando meus músculos. Eu já não sentia as pernas, por causa dos dois tiros que atingiram minha coluna, mas o tiro no peito doía de um jeito excruciante. Nunca tinha sentido uma dor dessa em toda a minha vida.
Estavam rasgando meus músculos, como fazem com um pano de prato velho.
Eu sou um pano de prato velho. Esse é o preço da minha vida. Um pano de prato velho, manchado, pronto para ser descartado.
Por que fizeram isso comigo?
Meu terceiro pensamento. Não conseguia entender. Eu era útil, apresentava resultados. Transportava a droga entre as comunidades, nunca era pego. Depois, comecei a comandar e, quando assustei, já estava participando dos almoços na casa do chefe, com a família do chefe. Era difícil de entender. Eu tinha, sim, sido pego com droga, mas o carregamento era de maconha, se enquadrando em consumo próprio. Passei a noite na delegacia, e isso foi suficiente para me silenciar. Sabia muito, bem mais do que qualquer outro membro da facção. Fui uma queima de arquivo.
Por que eu entrei nessa vida de crime?
Esse foi o quarto pensamento. A essa altura, eu já estava na ambulância e não sentia mais nada. Achei que tinham me dado algum remédio, mas era muito pior. Tentei falar, mas não conseguia. O paramédico, com os olhos fixos no monitor, me mandou ficar quieto. Obedeci.
De onde eu estava, dava para ver um pouco do Rio de Janeiro pela pequena janela.
Rio de Janeiro, cidade maravilhosa.
Inocentes são aqueles que acham que o Rio se reduz ao crime. É uma cidade linda, quem sabe até abençoada. Como em todo lugar, o problema do Rio são os lugares que você frequenta. Mas eu nunca fui muito inteligente. Na verdade, eu sempre fui um idiota. Um completo idiota. Na infância, mesmo crescendo na favela, via meus pais ralando para colocar comida na mesa. Nunca precisei trabalhar.
- Meu filho, o pai e a mãe trabalham desse jeito para você focar nos estudos. A caneta é mais leve que a enxada.
E a droga? É muito mais leve que a enxada. E o crime? Muito mais fácil de entrar do que uma universidade. E eu sempre odiei estudar. Queria uma vida fácil. Não queria trabalhar como meus pais, mas estudar era fora de cogitação. Não sou como esses jovens que entraram para o crime porque não tinham comida em casa. Eu tinha. Entrei por pura vontade, por preguiça. Queria dinheiro fácil. O caminho mais fácil. Mas tudo que é fácil cobra seu preço.
Eu não acreditava quando minha mãe dizia que eu só teria dois caminhos: a prisão ou o cemitério. Ela sempre me disse que, se eu quisesse receber uma visita dela, que fosse no cemitério, porque ela jamais me visitaria no presídio. Nisso você estava errada, mãe. Não existem só esses dois caminhos. O meu foi pior.
Finalmente, a ambulância parou. Meus ouvidos foram dominados por um barulho de vozes cada vez mais alto.
- Ele precisa ir para a sala de cirurgia agora.
- Chamem a cirurgia geral, a ortopedia, a cardiologia e a neurologia.
- Liga para o bloco cirúrgico, estou subindo com ele.
- O neuro não pode demorar. Ele já está paraplégico. Se demorarmos, não vai conseguir fazer nada sozinho.
-Vamos logo, ou ele morre.
Paraplégico? Morrer?
Meu quinto e último pensamento daquele dia. Eu não queria ficar paraplégico, então recorri à única coisa que eu tinha em mãos: a oração.
Rezei.
Rezei como nunca tinha feito na vida.
Rezei como um beato que não saía da igreja.
Supliquei a Deus, Jesus, Nossa Senhora, São Francisco... e até para o Diabo.
Queria viver, queria ser salvo, queria continuar minha vida. Junto com o pedido, veio o juramento. Jurei que pagaria qualquer custo pela minha vida, mas agora, não sei se foi sábio da minha parte.
Poderia ter aceitado a morte, me juntado a ela. Poderia ter rezado para morrer. Poderia ter partido dessa vida e pedido perdão em outro plano. Mas não. Quis ficar aqui. Achava que meu lugar era na Terra. E eu pensei que faria diferente, viveria minha vida diferente.
Em teoria, estou vivendo.
Se me perguntar, não sei dizer qual dos anjos ou demônios atendeu minha súplica. Minha última visão foi uma luz forte. Seria a tão falada luz do fim do túnel?
Não.
Era a sala de cirurgia. Gloriei que minha morte ainda não tinha chegado.
- Fica tranquilo, nós vamos te ajudar.
Colocaram uma máscara no meu rosto, administraram algo na minha veia, mas eu já não sentia mais nada nos braços. Só soube que estavam me espetando quando a enfermeira disse que tinha conseguido.
Depois disso, eu apaguei. Não tive tempo nem de raciocinar o que aquilo significava. Entrei em uma escuridão, e quando acordei, havia outra luz forte no meu rosto.
Não sei quanto tempo fiquei dormindo. Estava na UTI, isso era óbvio. Meu quadro não era bom, a julgar pelo barulho do monitor. Tentei me movimentar. Queria água. Minha garganta ardia, colada. Eu precisava de água, o básico que qualquer ser vivo precisa. Mas uma planta tinha mais mobilidade do que eu. Uma planta não sentia a sede que eu sentia. Uma planta conseguia água. Eu não.
O desespero me atingiu.
Eu não sentia nada. Não sentia minhas pernas, meus braços. Tentei me erguer, mas nada aconteceu. Tentei mover a cabeça, mas ela estava presa. Com os olhos, vi que havia um tubo saindo da minha garganta. Nessa hora, percebi que estava traqueostomizado.
O desespero me atingiu.
Eu estou paraplégico?
Esse foi, definitivamente, o meu pensamento mais assustador. Nunca tinha sentido um desespero tão grande em toda a minha vida.
Nunca me desesperei em uma perseguição policial. Nunca me desesperei quando me deram uma arma na mão e mandaram eu atirar em uma criança. Nunca me desesperei quando me mandaram torturar um inimigo. Mas, naquela situação, eu me desesperei.
O desespero foi tanto que o monitor começou a apitar. Olhei para ele, a frequência cardíaca muito mais alta que o normal. Uma equipe inteira me cercou. Os enfermeiros já estavam prontos para agir quando uma mulher jovem os impediu. Era a médica, a doutora responsável pela UTI naquela noite.
Ela era jovem, não devia ter muitos anos de carreira. Mesmo jovem, foi o melhor atendimento da minha vida. Ela virou minha cabeça de lado, seu olhar fixado no meu. Passou a mão no meu rosto. Era um gesto incomum, mas para mim, que só sentia aquela parte do corpo, era o ideal.
Minha frequência abaixou. Ela era quase um anjo.
Ela suspirou profundamente, como se quisesse falar alguma coisa.
E eu soube o que ela queria falar. Queria saber o motivo de eu ter acabado com minha vida. A resposta seria pior do que o silêncio que se instaurou.
Desperdicei minha vida porque não queria estudar.
Desperdicei minha vida porque não queria trabalhar.
Desperdicei minha vida porque queria o caminho mais fácil.
Desperdicei minha vida porque o crime era dinheiro fácil.
Desperdicei minha vida. Ponto final. Não tem o que falar. Eu desperdicei minha vida.
As palavras que escutei da boca dela foram apavorantes. Eu teria saído correndo, mas não conseguia nem tomar água, quem dirá fugir de um hospital. A calma na sua voz era calculada. Por dentro, ela estava tão desesperada quanto eu. Meu caso era desesperador.
- Você foi baleado, e as balas atingiram sua coluna. Você está tetraplégico para o resto da sua vida. Significa que você não consegue mexer nada do pescoço para baixo. Isso também vai mudar completamente sua vida. Você não vai conseguir comer sozinho, respirar sozinho, fazer nada sozinho. Tudo na sua vida terá uma máquina ao seu lado. Mas você vai viver. Existe algum santo querendo que você viva... Eu nunca vi, nem nos mais malucos relatos de caso, um paciente que sobreviveu ao que você sobreviveu. Se isso é sorte ou azar, não sou eu quem tem que dizer.
Maldita súplica, eu pensei.
Se fosse para ter sobrevivido dessa maneira, que me deixassem morrer. Não queria ter sobrevivido dessa forma. De maneira alguma. Preferia ter morrido e aceitado uma punição divina. Mas eu disse que pagaria qualquer preço. E o preço foi esse: viver em uma prisão sem grade.
Então, mãe, existem, sim, outros caminhos, e são muito piores. Estar privado de liberdade do jeito que estou não é viver. Eu sobrevivo, não vivo. Viver é diferente. Eu sou um vegetal.
Hoje, depois de anos de fisioterapia, consigo falar alguma coisa. Inútil, porque ninguém me entende.
Fico deitado, meus olhos vidrados na televisão o dia todo. Assisto a todos os programas da TV aberta: Ana Maria Braga, Encontro com Patrícia Poeta, Vale a Pena Ver de Novo, novela das 18h, 19h, Jornal Nacional, novela das 21h. Assisto a todos os jornais. Sei mais do que está acontecendo no mundo do que qualquer outra pessoa. Seria um assunto interessante para debater, mas eu não consigo falar.
Não me sobra mais nada para fazer. Não posso segurar um livro, não posso virar a página de uma revista. Não consigo dizer o que quero assistir. Só me resta aceitar esse destino. Só me resta ver o que me colocam para ver.
Que destino terrível.
Estou preso em meus próprios pensamentos, a única coisa que não me tiraram. Minha cabeça é um mundo, mas é insuficiente.
Fico pensando na minha época do crime.
Hoje, eu nunca teria entrado para a vida do crime.
Mas falar é fácil. Corrigir o que já passou é fácil. Ou melhor: falar que corrigiria o passado. Ninguém pode mudar o que já foi, e, até nessa minha situação deplorável, eu não tenho saída.
Eu só queria poder ter uma borrachinha mágica para apagar o passado e começar de novo.
Mas, como não tenho, só me resta dizer o que eu faria de diferente.
Hoje, eu não me sentiria honrado em ser o aviãozinho que nunca tinha sido pego.
Hoje, eu não me sentiria honrado em saber os segredos da facção.
Hoje, eu não me sentiria honrado em ser convidado para as torturas de inimigos.
Hoje, eu não me sentiria honrado por ter puxado o gatilho em um pelotão de fuzilamento.
Hoje, eu não me sentiria honrado por ver um policial morto pelo meu tiro.
Hoje, eu não me sentiria honrado em ser o aviãozinho que nunca tinha sido pego.
Vou repetir esse último, porque só estou aqui hoje por conta disso. Nunca suspeitavam de mim. Em um país racista como este, um jovem branco andando de bicicleta na orla era só um jovem andando de bicicleta na orla. Se fosse um preto? Teria sido pego no segundo dia.
Preto parado é suspeito.
Preto correndo é bandido.
Um branco carregado de droga é um jovem inocente.
O aviãozinho que nunca tinha sido pego.
Eu me enchia de orgulho. Um orgulho inexplicável. Passaram a me contar tudo, e veja o que aconteceu.
Bastou eu passar uma noite na delegacia para virar queima de arquivo.
Eu sabia muito. Muito mesmo. Poderia desmantelar a facção inteira com uma delação de quinze minutos. Poderia fazer o chefe ser preso tão fácil que nem sentiria o esforço. Sabia a casa, a hora que ele entrava, a hora que saía, a hora que sua família estava fora, a hora que ele estava sozinho.
Eu não disse nada naquela noite. Só tinha maconha, pouca quantidade. Aleguei consumo próprio e segui minha vida.
Mas ainda existia uma coisa que valia menos do que minha vida. Valia menos que um pano de prato sujo e rasgado: minha palavra.
O que era a palavra de um bandido? Eu era tão ruim quanto eles. Quem cala, consente. E eu não só me calava, eu apoiava, ria e fazia.
Eu era tão ruim quanto cada um deles.
Era tão ruim quanto um assassino, um torturador.
Eu era um assassino e torturador nas horas vagas.
E não se engane comigo: eu adorava torturar. Era quase como escutar uma orquestra. Os gritos eram tão altos que preenchiam o ambiente.
Sangue. Eu gostava de tirar sangue.
E olha o que aconteceu... Tiraram meu sangue.
Tentaram me silenciar, me matar. De um jeito muito bom, eu admito. Três tiros, limpos, fatais. Pelo menos, deveriam ter sido fatais. Poderiam ter me torturado até a morte, como eu já assisti e fiz com os rivais. Poderiam ter me batido com um pedaço de pau cravejado de pregos, como eu já assisti e já fiz com os inimigos. Mas não. Escolheram a arma, quase uma demonstração de misericórdia.
Eles sabem que eu sobrevivi, mas não tenho medo. Tenho esperança.
Se vierem atrás de mim, eu morro. Mas não tem sentido. Eu já estou silenciado. Isso é suficiente para o crime. Para mim, é a minha perdição.
Vejo no jornal que a facção cresce a cada dia, dominando ainda mais o Rio de Janeiro. Queria tanto conseguir falar, colocar um fim nisso. Queria conseguir destruir um império do crime.
Mas não consigo. Não posso nem falar, quem dirá destruir um império do crime. E se eu conseguisse falar, será que teria coragem de fazer isso? A morte de um traidor é muito pior do que simples três tiros. A morte de um traidor faz o espancamento com o pau de pregos parecer uma misericórdia.
Vocês sabem o que fazem com um traidor, sabem qual é o destino do traidor na favela?
Não queiram saber. É brutal, indesejável até para seu pior inimigo.
Mas, na minha cabeça, eu só consigo pensar que minha vida valeu menos que um pano de prato velho e sujo. Minha vida não valia, e não vale, nada.
Hoje, com vinte e nove anos, não tenho meu bem mais precioso, minha vida.
Eu até estou sobrevivendo, cérebro funcionando, coração bombeando sangue. Mas eu não estou vivo. E nunca mais estarei.
Com vinte e nove anos, eu não vivo. Deveria estar no auge da minha vida, começando a receber um salário melhor, quem sabe a primeira promoção. Já poderia estar no mestrado, talvez até no doutorado. Mas não. Eu não consigo me mover, não consigo falar, não consigo comer, não consigo beber, não consigo respirar.
Com vinte e nove anos, eu não vivo. Não posso sair, encher a cara, curtir a noite. Não posso nem tomar água, quem dirá uma boa dose de cachaça.
Com vinte e nove anos, eu não tenho amigos. Não vou ao cinema, não vou ao shopping. Não posso nem escolher a roupa que vou vestir.
Não sei quando isso vai acabar. Pode ser que acabe amanhã, mas também pode ser que acabe daqui a trinta anos. Posso viver por mais incontáveis anos, décadas. Mas posso afirmar que a vontade é outra. Não tenho mais vontade de viver. Agora, queria morrer.
Queria abraçar a morte como uma velha amiga, aceitar que ela é somente mais uma etapa da vida.
Queria o conforto da morte, do escuro, do sombrio.
Creio que a foice da morte seja menos dolorosa do que tudo que estou passando. Pelo menos seria dor física. Meu sofrimento vai muito além do que minhas células conseguem sentir, ele invade minha alma.
Minha alma, que não pode evoluir porque está presa a um pedaço de carne inútil.
Quem me dera ter evolução espiritual. Se tivesse, nunca teria rezado para sobreviver, nunca teria dito que pagaria qualquer preço em troca da vida. Ser evoluído espiritualmente também é saber que a morte não é o pior dos cenários. Em muitos casos, ela é o melhor.
A morte é dolorosa, sim, mas só para aqueles que ficam. Para quem morre, o sofrimento é passageiro. Ao se encontrar em um paraíso, quem iria querer voltar para o inferno? Pelo menos, é o que eu acredito. Acredito que morrer não seja ruim. Para mim, seria ótimo.
E eu penso muito naqueles que ficariam. Minha mãe e meu pai, as únicas pessoas que não me abandonaram. Mas será que a dor da minha morte seria maior do que a dor de me ver nesse estado? Eu acho que não. Então, até a minha teoria cai por terra.
Acontece que tudo na vida é relativo. A morte é relativa. Tudo depende do contexto. Como a pessoa morreu? Ela já estava em sofrimento, agonizando? Existia alguma chance, mesmo que remota, de cura? Se as respostas forem negativas, então a morte é positiva.
Morte.
Quem me dera abraçar a morte. Talvez pudesse ser recebido por minha vó. Mas eu me grudei na vida carnal. Grudei meu pedaço de carne, que não posso mais chamar de corpo, e grudei minha alma.
Minha alma não pode ser livre, porque eu fiz uma súplica errada, que foi atendida.
Penso muito em me suicidar. Já pensei em tantas formas. Mas, adivinha, nem isso eu consigo fazer.
Todas as formas de suicídio exigem, no mínimo, movimentos. Como eu posso cortar meus pulsos se não consigo nem me mover? Como posso tomar uma caixa inteira de um tarja preta se não consigo me mover? Como posso cravar uma faca no meu coração se não consigo me mover? Como posso cortar minha garganta se não consigo me mover?
No meu cenário, é impossível me suicidar. A única forma que pensei foi tentar me engasgar. Mas nem isso sou capaz. Estou vivo contra minha própria vontade.
Não posso me matar, só posso desejar que a morte me encontre.
Posso suplicar, dessa vez, para morrer.
Deus, Jesus, Nossa Senhora, São Francisco e o Diabo.
Suplico a todo momento, mas acho que esgotei minhas súplicas. Não acho, tenho certeza.
Aceitaria qualquer destino que não fosse ficar preso a esse corpo.
Aceitaria queimar no inferno, contanto que eu pudesse esfregar minha pele, buscando alívio, contanto que eu pudesse gritar por ajuda, contanto que eu pudesse sentir, que eu pudesse me mover, que eu pudesse respirar sem ajuda de uma máquina.
Quem sabe, algum dia, criem um aparelho de respiração controlado por IA.
É uma esperança. E eu torceria, todo dia, para que ela emitisse algum comando errado. Eu quero morrer, e nada vai me tirar essa vontade.
Exceto devolverem meus movimentos e minha fala. Isso já seria suficiente para me fazer querer viver.
Mas é impossível.
E eu até poderia acreditar em milagres, mas ninguém quer atender minhas súplicas.
Eu só queria morrer. Será que é muito pedir isso?
No começo, tinha esperança de a luz cair e eu morrer nesse pequeno período. Mas escutei que instalaram um gerador. Maldito gerador.
Independentemente de quem atendeu minhas súplicas, quer muito me ver aqui.
Talvez esse seja meu propósito.
Talvez esse seja meu castigo.
Depois de tudo que eu fiz, eu mereço um castigo. Mas eu acho que já aprendi o suficiente.
Eu só queria morrer.
Queria fechar meus olhos e saber que nunca mais iria viver preso nesse corpo.
Queria fechar meus olhos e nunca mais acordar.
Queria fechar meus olhos e entrar em uma outra etapa.
Mas não posso.
Antes de morrer, preciso pagar.
Pagar por cada gatilho que eu puxei, por cada facada que eu dei, por cada paulada, por cada vida que eu tirei, por cada tortura que eu realizei.
A dívida é grande. E fica ainda pior pelo fato de eu não saber quem eu matei.
Eu não sei quantas famílias eu destruí.
Eu não ligava. Antes nele do que em mim, eu pensava.
Eu já aprendi o suficiente, mas não paguei o suficiente.
E agora, me cabe esperar a morte, sendo torturado lentamente. Preso. Em uma prisão sem grade. Preso no meu próprio corpo. Preso na minha própria mente.
Minha mente, a única coisa que me restou.
Meus pensamentos, meu mundo no meu cérebro.
Como dizia Roberta Miranda, “Meus pensamentos tomam forma e eu viajo, vou para onde Deus quiser.” É verdade. Eu viajo, uma mente veloz. Mas meu corpo fica para trás.
Meu corpo fica aqui, vegetando.
Meu corpo fica aqui, bloqueando minha alma.
E por mais grandiosa que seja a mente, é insuficiente.
A única coisa que me restou, minha cabeça.
Isso, pelo menos, não tiraram de mim. Me tiraram quase tudo, menos meus pensamentos.
Mas eu repito, é insuficiente. Totalmente insuficiente.
Eu só queria morrer.
Morrer, no sentido mais literal possível.
Morrer, cantar para subir, falar com Deus pessoalmente, bater as botas, estirar o pernil.
Eu queria ter paz. O alívio da escuridão.
Mas essa misericórdia é algo que não me cabe. É algo que eu não mereço. A morte não é o castigo. A morte é a misericórdia daqueles que a merecem.
Misericórdia. Engraçado e hipócrita eu querer misericórdia. Eu já tive misericórdia? Não. Quando o inimigo gritava, pedindo por favor, me implorando para viver, eu tinha misericórdia? Não. Eu ria. Ria na cara dele, e continuava. Aquilo me dava ainda mais ânimo, mais vontade, mais tesão.
Talvez eu seja um psicopata. Acho improvável, mas se for para listar tudo que eu já fiz na minha vida, eu sou pior do que muitos por aí.
Se eu estivesse nos Estados Unidos ou em Singapura, provavelmente seria condenado à morte.
Por cada assassinato, cada tortura, cada estupro.
Sim, eu já estraguei a vida de muitas mulheres. Mas eu não ligava. Eu não tinha misericórdia.
Eu queria transar, liberar a adrenalina. Se a mulher não quisesse, eu não me importava. Eu já queria, e isso era suficiente na minha cabeça de merda.
Agora, uma pessoa como eu merece misericórdia?
Um assassino, torturador, estuprador.
Eu mereço misericórdia?
Eu não sei nem quantas mulheres eu traumatizei para o resto da vida. Não tenho ideia. Isso me torna uma pessoa ainda pior.
E não se engane, a lei da favela não permitia essas atitudes. Se eu fosse descoberto, meu destino seria terrível, muito pior do que o de um traidor.
Até na favela, o crime tem limite. E estupro é inadmissível, até entre assassinos e torturadores.
Mesmo assim, eu continuava. Nenhuma das minhas vítimas falava. Eu estava lá quando uma das meninas foi encontrada, sem nada de roupa, amarrada e amordaçada. O chefe perguntando quem foi, que iria mostrar para a pessoa o que acontecia com estupradores.
Mas ela não falou. Disse que não viu. Olhando no meu rosto, no rosto do seu estuprador, ela disse que não viu quem foi.
E eu fui cínico. Dei um passo à frente e perguntei para ela.
Eu, pessoalmente eu, perguntei a ela quem foi.
Cinismo.
Ela não disse nada, a resposta continuou a mesma. E eu sorria por dentro. Sorria como se tivesse ganhado na loteria. Eu sou uma pessoa horrível, e se não fosse minha pequena ida à delegacia, eu ainda estaria cometendo todas essas atrocidades.
Eu sorria por ter saído impune. Por ter estuprado e não ter sido descoberto.
E eu não ligava que estava acabando com a vida de uma pessoa, traumatizando uma mulher, uma jovem de vinte anos, para o resto da vida.
Eu queria liberar a adrenalina. E eu liberava.
Mas veja o preço. Hoje, eu não consigo ter paz.
Por tantas vidas que eu tirei, tantas pessoas que eu torturei, tantas meninas que eu estuprei, eu não consigo ter paz.
E eu peço misericórdia, mas sou um hipócrita.
Eu quero misericórdia, quando eu mesmo nunca tive com ninguém.
Eu mereço esse destino. Eu mereço essa sobrevida.
Isso não é vida.
É uma sobrevida.
Eu não estou vivo.
Não estou vivendo. Estou sobrevivendo.
Definhando.
Vegetando de frente para uma televisão, com todos os meus fantasmas.
Sou assombrado, todos os dias, por meus fantasmas.
E eu mereço isso.
Isso, e muito mais.
Mas eu afirmo que isso não é vida.
Mas tampouco é a morte.
Quem me dera se fosse a morte.
Mas eu não mereço essa misericórdia.
Eu mereço não viver, e ao mesmo tempo, não morrer.
Por cada vida que eu tirei.
Por cada pessoa que eu torturei.
Por cada mulher que eu estuprei.
E se a vida for realmente justa, eu não vou morrer tão cedo. Porque, com o tanto de barbaridade que eu cometi na minha vida, eu vou precisar de décadas para pagar.
Hoje, minha esperança é a morte.
Eu adoraria morrer.
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